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Agricultura

Três gerações trabalham juntas na produção de leite

Três gerações trabalham juntas na produção de leite
  • 30/10/2026 - 20:18
  • Atualizado 30/10/2026 - 20:19

Em uma tarde ensolarada, Carolina Soares de Oliveira dá água aos bezerros. Provavelmente essa seja a tarefa mais simples que a jovem, de apenas 15 anos, acompanhe na propriedade onde mora com a avó, a mãe e o tio, no interior de Ijuí.

Além dos cuidados básicos com a alimentação das vacas, ela também está junto da família no momento da ordenha, aplicação de soro e medicamentos, inseminação e até no auxílio para os bezerrinhos nascerem nos partos mais difíceis. A lista de na propriedade é extensa e boa parte delas são aprendidas com o tio, que é também seu dindo, Marcelo Edegar Soares. Carolina é da terceira geração da família e já garante a sucessão rural na propriedade, onde a produção de leite é a fonte de renda. Estudante do 9° ano do ensino fundamental, ela afirma que fará técnico agrícola no ensino médio.

A avó, Isolde Kantorski Soares, recorda a época em que a ordenha era manual e manter o leite em condições de consumo, até a entrega ao comprador, era mais difícil. "Quando o dia era muito quente, a gente até fervia o leite para não estragar", lembra. A produção também era menor, em torno de 200 litros por dia. Ela conta que levavam três tarros de leite até a beira da estrada, onde passava o caminhão para recolher. "E voltávamos em casa para pegar mais dois baldes", acrescenta.

Com o passar dos anos, os filhos foram assumindo as atividades e o acesso à tecnologia facilitou a evolução no sistema de trabalho. Atualmente, a ordenha é mecanizada e a produção gira em torno de 2.700 litros de leite por dia. Hoje, aos 68 anos, Isolde se sente tranquila ao ver o interesse da neta em seguir no meio rural.

"Desde pequena a Carolina já gostava de cuidar dos animais e nos ajudava", acrescenta a mãe, Andréia Soares, que também começou cedo na lida. Para ela, o interior é o melhor lugar para morar por ser mais tranquilo, mais seguro. E acredita que as crianças e adolescentes são mais livres no campo. "É o lugar ideal para criar um filho", resume.

Para Marcelo Edegar Soares, as dificuldades do setor agropecuário são uma barreira para a sucessão rural familiar. Embora o avanço tecnológico tenha levado mais conforto e facilitado a execução das atividades, o trabalho é contínuo e requer muito tempo de dedicação. Dessa forma, Marcelo observa que é difícil ter uma vida social, pois os animais necessitam de atenção de segunda-feira a domingo. "Os filhos crescem ouvindo os pais reclamarem, então desistem", afirma. Ele, no entanto, pondera que todos os segmentos têm suas dificuldades e, portanto, não é motivo para desistir. Marcelo sempre trabalhou na produção de leite e planeja investimentos em médio prazo para aumentar a produção na propriedade.

Ijuí está inserida em uma das principais regiões produtoras de leite do País, no Noroeste do Rio Grande do Sul. De acordo com levantamento da Emater/RS-Ascar, referente a 2025, o município conta com 238 propriedades fornecedoras de leite para a indústria. O número de vacas ordenhadas chega a 8.210, resultando em uma produção de aproximadamente 39 milhões de litros ao longo do ano.

Os dados também apontam que 29 produtores adotam o sistema de confinamento na criação do rebanho, enquanto 209 utilizam o sistema a pasto. Embora o número de propriedades com animais confinados seja menor, a estimativa é de que esse modelo responde por cerca de 50% da produção leiteira do município.

No sistema Compost Barn, utilizado pela família Soares, as vacas ficam confinadas em uma área coberta, em cima de cama feita com serragem, para abrigá-las. No local há climatização e a alimentação dos animais é feita em cochos. O extensionista rural da Emater/RS-Ascar Edevin Bernich afirma que, se cerca de 80% dos animais estiverem deitados, é um indicativo de que estão bem. "É um sinal de que as vacas estão se sentindo confortáveis, também indica que estão com saúde", analisa. A serragem deve ser revolvida diariamente para controle da umidade, que se intensifica durante o inverno.

A tranquilidade e a oportunidade de estar junto com a família são alguns dos motivos para Tâmires Seifert preferir morar no interior de Ijuí e seguir no meio rural. "Na cidade é muita correria, os pais saem de manhã cedo, voltam à noite, enquanto os filhos ficam na creche ou com outra pessoa", resume.

Tâmires é da terceira geração da família que trabalha na produção de leite, principal fonte de renda da propriedade, onde mora com o namorado, João Eduardo Reis; com os pais, Oldemar e Rosalete Seifert; a avó Cedi Seifert; o filho, Brian Seifert Fachin; e o irmão, Bruno Seifert. Ela procura mostrar às crianças, com 9 e 11 anos, respectivamente, as vantagens em morar no interior como forma de estimulá-los a permanecer no meio rural.

A rotina da família começa cedo, por volta das 4h30, com a ordenha mecanizada das vacas. A produção média gira em torno de 1.000 litros por dia. Após é preciso fazer a higienização do equipamento e do local, além de levar as vacas para o pasto. Os animais recebem suplementação de silagem e ração na alimentação. Paralelo a essas tarefas, é necessário organizar a casa e preparar os meninos para irem à escola. Eles têm participação na rotina, acompanhando algumas atividades. Na propriedade, há também plantio de soja e aveia, além de hortaliças, frutíferas e criação de gado de corte para consumo próprio.

Na avaliação de Oldemar Seifert, o cenário na produção de leite está melhorando. A propriedade é reconhecida com o prêmio Destaque em Sucessão Familiar, uma homenagem a produtores rurais em várias categorias, realizada pela Prefeitura de Ijuí. A entrega ocorreu durante o lançamento do Milk Summit Mercosul 2026, no dia 14 de julho.