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Saúde

Pela primeira vez desde 2003, RS tem mais mortes do que nascimentos entre janeiro e junho deste ano

Segundo dados dos cartórios de registro civil, foram anotados 845 óbitos a mais do que nascimentos

  • 11/07/2021 - 10:17
Pela primeira vez desde 2003, RS tem mais mortes do que nascimentos entre janeiro e junho deste ano
Reprodução/Internet

Desde 2003, quando teve início a série histórica, o Rio Grande do Sul não registrava tantas mortes e tão poucos nascimentos em um primeiro semestre como em 2021. Os cartórios gaúchos anotaram 66.751 óbitos entre janeiro e o final do mês de junho, 74,3% acima da média histórica e 59,1% maior do que o dado do mesmo período em 2020, quando a pandemia do coronavírus começou a fazer vítimas. Já com relação a 2019, o aumento no número de mortes foi de 59,9%.

No mesmo período, o Estado registrou 65.906 nascimentos, número 9% menor do que a média histórica e 3,6% abaixo do que no ano passado. Em comparação com 2019, ano anterior à chegada da pandemia, o número de nascimentos caiu 7,6%.

Assim, pela primeira vez na série histórica, houve mais mortes do que nascimentos no Estado, uma diferença de 845 registros, o que resulta em crescimento vegetativo negativo da população. A média histórica para o período é de 34.165 nascimentos a mais do que óbitos.

Os dados constam no Portal da Transparência do Registro Civil, base de dados abastecida em tempo real pelos atos de nascimentos, casamentos e óbitos praticados pelos cartórios de registro civil do país, administrada pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), e foram cruzados com históricos do estudo Estatísticas do Registro Civil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nos próprios cartórios brasileiros.

De acordo com a Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Rio Grande do Sul (Arpen-RS), a pandemia vem causando um "profundo impacto nas estatísticas vitais da população gaúcha" e "alterando a demografia de uma forma nunca vista" desde o início da série histórica dos dados estatísticos dos cartórios.

Para o professor da Escola de Medicina da PUCRS e pesquisador do Instituto de Geriatra e Gerontologia Ângelo Bos, os dados causam preocupação. Segundo ele, a diminuição no número de nascimentos vinha sendo constante, mas o aumento no registro de óbitos pode acelerar a tendência prevista:

— No ultimo censo do IBGE, em 2010, já era possível ver uma diminuição no crescimento da população. A partir disso, se poderia antever uma situação de estagnação ou até mesmo redução da população para 2035. Esses dados deste ano podem indicar várias consequências, entre elas um aceleramento desse cenário e um impacto na sobrevida do brasileiro, que pode ver sua expectativa de vida mudar bastante.

O professor de Demografia e Desenvolvimento Regional do Campus Litoral Norte da UFRGS Ricardo de Sampaio Dagnino afirma que os números precisam ser observados com cautela. Censos do IBGE e o Datasus, o banco de dados do Ministério da Saúde, são produzidos com mais tempo e detalhamentos. A ausência do censo de 2020, que deixou de ser produzido pelo IBGE, também traz insegurança na interpretação.

— A pandemia não vem sozinha. Quando um país está em crise, não só a sanitária mas a econômica também, como o nosso, as pessoas vivem momentos de insegurança, que fazem com que repensem suas metas de vida, como o desejo de ter filhos, que pode acabar sendo adiado. Mas essa decisão também passa, por exemplo, por questões ligadas a presença da mulher no mercado de trabalho e debates sobre igualdade de gênero — explica Dagnino.

No RS, há um agravante, segundo Dagnino, pelo fato de o Estado ter como característica "perder população" para migração, porque não atrai muito público de fora, mas envia moradores para outras regiões:

— Isso, somado a uma baixa no número de nascimentos e aumento no de mortes, pode impactar todo a nossa estrutura etária e expectativa de vida. É possível que precisemos repensar desde o sistema de previdência até o número de escolas que temos, por exemplo.

Recuperação nos casamentos


De janeiro a junho deste ano, os cartórios celebraram 14.591 casamentos civis, 29,4% a mais que os 11.274 realizados no ano passado, mas ainda 16,8% menor que os 17.527 casamentos celebrados em 2019. O número registrado em 2021 é o segundo menor da série histórica. 

"Embora 16,9% menor que a média histórica de casamentos no primeiro semestre no RS, o número de matrimônios em 2021 mostra uma pequena recuperação em relação às celebrações do ano passado, fortemente impactadas pela chegada da pandemia que adiou cerimônias civis em virtude dos protocolos de higiene necessários à contenção da doença", diz a Arpen-RS.

Ainda de acordo com a entidade, a série histórica demonstra que o aumento no número de casamentos está diretamente ligado ao crescimento da taxa de natalidade no Estado. Mesmo assim, é possível que ainda demore para ocorrer a recuperação em nascimentos, já que o dado de 2021 ainda é baixo.

Fonte: GZH